Ex-coroinha de Karol Wojtyla é padre peregrino
no Brasil
Curitiba (PR), 8/3/2005 - 13:04
Os óculos denunciam a acentuada miopia, a barba é espessa, a camiseta traz propaganda de uma indústria.Nos pés, confortáveis havaianas. Quem já viu o "padre Marian Litewka, 68, encostar seu caminhão-capela e rezar missa em algum posto rodoviário do país foi embora sem saber que ele foi coroinha do padre karol Wojtyla e que já tomou café da manhã com o papa João Paulo II, no Castelo Gandolfo."Foi um acidente
da vida. Nascer no Pará ou no Paraná é quase a mesma coisa", diz padre
Marian ao explicar a razão de só falar de seu vínculo com o papa quando provocado.
Padre da congregação
da Missão de São Vicente de Paulo, ele chegou a Curitiba em 1962 e, há 29
anos, coordena a Pastoral Rodoviária da CNBB. A Pastoral percorre as estradas
do país, prega a religião e dá apoio espiritual aos caminhoneiros. São apenas
três os padres peregrinos do asfalto - todos vicentinos de Curitiba. E Marian
está parado por estar doente.
A Pastoral tem uma
pequena frota de três caminhões. Quando um pára em um posto rodoviário, a
porta traseira do baú revela um altar, e é ali que o padre rodoviário reza
missa, ouve confissões e distribui a comunhão para caminhoneiros, frentistas
e famílias que têm as rodovias como meio de sustento. "Só não saem casamento
e batizado, porque envolvem documentos."
Padre Marian esteve
sozinho nessa pregação por 14 anos, até conseguir os dois adeptos. Nesse período,
passava mais de 300 dias do ano na estrada e chegava a rezar 400 missas.
Seu trabalho chegou
aos ouvidos do papa João Paulo II. Em 1986, quando fazia 25 anos de ordenação,
padre Marian foi chamado pelo Vaticano para uma benção especial. Acabou convidado
para o café da manhã na residência de verão do papa. "O telefone tocou,
e ele foi chamado. Virou-se para mim e pediu que eu contasse ao pequeno grupo
sobre o trabalho na estrada do Brasil, enquanto falava ao telefone."
Seis anos antes, em
Curitiba, na visita que o papa fez ao Brasil, padre Marian espera curioso
no corredor da Cúria Metropolitana o fim da reunião do seu chefe supremo com
os bispos. Foi chamado por um integrante da comitiva do Vaticano. A porta
se abriu e João Paulo II deu um abraço no ex-coroinha. "Você está parecendo
Fidel Castro (ditador de Cuba) com essa barba", disse o papa em polonês.
Na Polônia, a convivência
tinha sido frequente. Sempre em dupla padre Marian ajudava o padre Karol,
28, então o mais jovem da paróquia de Sã Floriano, em Cracóvia, a rezar as
missas. Tinha 11 anos e compunha um corpo de mais de cem coroinhas - garotos
que ajudavam os padres nas missas, hoje substituídos por adultos - da cidade.
Foram dois anos nessa atividade. Lembra que o irmão mais novo chegou da escola
contando que o padre Karol o havia parado na rua para saber dos pais e dos
irmãos.
"Ele era muito
simples no tato com as pessoas. Não dá para entender isso no contexto brasileiro
e nos dias de hoje, mas na Polônia, o padre era o tal, quase uma majestade
que o povo venerava, apesar do regime comunista. Os padres navegavam nessa
veneração. Padre karol, não. Era dos que davam atenção às crianças"
Padre Marian ainda
contaria com seu orientador religioso entre os fiéis quando rezou sua primeira
missa e foi à cerimônia
"Tinha a foto
em que ele aparece na minha primeira missa, mas já não sei onde está",
diz recusando-se a atender ao pedido de procurar por ela. "Sempre me
proponho a arrumar minha bagunça, mas vou deixando, desculpa-se ele, que passa
por uma depressão, perdeu parte da audição e é hipertenso. A depressão ele
não trata e atribui "à solidão da estrada."
Ainda assim não pensa
em abandonar o caminhão-capela. Como também não acha que a doença deva afastar
o papa. "Ele perdeu a fala, mas a saúde mental não foi abalada. Pessoalmente,
acho que ele é papa até morrer, mas se resolver renunciar, pode, pois não
há lei para o papa".
As lembranças remetem
ao jovem Wojtyla, que tinha a arte do falar. "Era ótimo pregador e tinha
conteúdo. Apesar de professor de filosofia, usava palavas tão simples que
entendiam. Conosco (os coroinhas), organizava um coro tipo teatro. Ele era
adepto do teatro rapsódico, que dá ênfase à palavra."
O ex-coroinha do papa
veio para o Brasil junto com o hoje pároco da Igreja de São Vicente de Paulo
de Curitiba, Jorge Morkis, 67, outro religioso que conheceu o papa na juventude,
sem, porém conviver com ele. Foi padre Jorge quem contou à Folha sobre a existência
e história de padre Marian com João Paulo II.