Com Deus na boléia
[ 13.Nov.2000 ]
Alexandre Medeiros
http://www.no.com.br/revista/noticia/12331/975589254000
Quem vê aquele sujeito encorpado no posto de beira de estrada, com um maço
de cigarros no bolso da camisa, de bermudão, boné e chinelos, saboreando o
seu chimarrão deitado numa rede, o rádio na boléia tocando música sertaneja
ou um legítimo Roberto Carlos, não tem a menor dúvida: trata-se de um caminhoneiro.
Se quiser puxar conversa, será um prazer. O tal sujeito sabe tudo de mecânica,
conhece como poucos as estradas brasileiras e tem mil histórias para contar.
Lá pelas tantas, com a voz mansa, ele vai pedir licença para encerrar o papo
com uma justificativa inusitada: “Bom, agora eu tenho que preparar a missa”.
Não tenha a menor dúvida: trata-se de um padre.
“Como rezo missas há mais tempo do que dirijo
caminhões é provável que eu seja melhor padre do que caminhoneiro. Mas é só
uma impressão”, diz o padre Germano Nalepa, com seu habitual bom humor. Durante
dois dias, no. acompanhou o padre-caminhoneiro por estradas
de Minas Gerais, entre as cidades de Ipatinga, Dom Cavati e Periquito – parte
de um roteiro de dois meses (outubro e novembro) por 50 municípios mineiros,
paulistas e fluminenses. Foram os dois únicos dias dessa longa peregrinação
em que o padre teve companhia – pelo menos de carne e osso – na boléia. “Como
a maioria dos caminhoneiros, sempre viajo sozinho. Só eu e Deus”, ele diz.
O padre Germano é o mais novo – de idade e
de volante – de uma brigada de três padres que cruza o país para rezar missas
em postos de combustível e restaurantes de beira de estrada. É a chamada Pastoral
Rodoviária, uma criação da Congregação dos Vicentinos (de São Vicente de Paulo),
ligada à Diocese de Ponta Grossa (PR). Foi fundada em 1976 pelo padre polonês
Marian Litewka, coroinha na juventude do Papa João Paulo II em Cracóvia, na
Polônia, e sacerdote no Brasil desde 1962. O padre Mário, como é conhecido,
foi um solitário missionário rodoviário nos
primórdios da pastoral. Os roteiros em geral cobriam apenas a Região Sul
do país. Quase 25 anos depois – a data será comemorada em 4 de março de 2001
– a missão vicentina está presente em todos os cantos do Brasil, à exceção
de Amazonas, Roraima e Amapá. “Não fossem as condições precárias das estradas
nesses três estados, já estaríamos lá também”, explica um destemido padre
Germano.
Bisneto de poloneses – o polonês é o idioma
falado na família radicada no Brasil –, o padre nasceu em Campo Magro (PR),
nas cercanias de Curitiba, em 1956. Ingressou na Congregação dos Vicentinos
quando tinha de 10 para 11 anos e foi ordenado sacerdote em 1979. Filho de
lavradores, aprendeu a dirigir no velho caminhão que o pai usava para levar
os produtos agrícolas da roça para a venda na cidade. Nada comparável ao moderno
Volkswagen 8-140, modelo 1999, em que hoje trafega pelas pistas. Ou melhor,
em que mora: dos 365 dias do ano, pelo menos 250 ele passa no caminhão. “Se
eu disser que é a minha casa, não vou estar mentindo. Estamos na sala de visitas”,
brincou o padre Germano na boléia. Foi ali, a 70 quilômetros por hora, na
rodovia BR-458, entre Dom Cavati e Ipatinga, que ele contou a no. que passou
os seus 12 primeiros anos de sacerdócio a bordo de outro meio de transporte:
o barco.
“Sei dirigir voadeira também”, riu ele, lembrando
de uma embarcação leve com motor de popa, geralmente de metal, típica dos
rios amazônicos. Com ela, o padre Germano atendia a comunidades ribeirinhas
do Pará, mais precisamente do Baixo Tocantins. A primeira estrada com que
ele se deparou como padre foi a Transamazônica, uma via-crucis para qualquer
caminhoneiro. “Conheci Tucuruí nos tempos em que a hidrelétrica era apenas
um projeto. O povo lá vivia em total isolamento”, lembrou. Foi lá que o jovem
padre teve contato com comunidades indígenas – parakanãs e assurinis – e com
o drama dos lavradores sem terra. “Entre 1981 e 82, lutamos pelo direito de
reassentar 3.600 famílias de colonos que tiveram suas lavouras inundadas pela
hidrelétrica de Tucuruí. Essa luta foi o embrião do MST na região. Nessa época,
o movimento só existia no Sul, onde nasceu. Por estar ao lado de índios e
de lavradores, fui taxado de padre de esquerda, mas isso nunca me causou problemas
na igreja ou fora dela. Acho que eu estava do lado certo”.
Espírito inquieto e dois
maços e meio de Derby por dia
Se na Amazônia a missão vicentina era formada
basicamente por padres de origem holandesa, no Paraná tinha contornos de uma
colônia polonesa. Por isso, quando o padre Germano voltou de sua epopéia amazônica,
em 1991, sentiu-se em casa. “Fiquei cinco anos como padre de paróquias muito
tranqüilas no Paraná. Para falar a verdade, tranqüilas demais para mim. Eu
tenho um espírito viajante, sou um missionário que gosta de sair por aí”,
contou ele, já acendendo mais um cigarro. Até o final do dia seriam dois maços
e meio de Derby consumidos sem a menor culpa. Depois de uma baforada, disse
que o convite para substituir o padre José Carlos Chacorowski – conhecido
como Zé da Estrada –, em 1996, soou como buzina de caminhão aos seus ouvidos.
“Foi a missão pastoral que aceitei com a maior felicidade em minha vida”,
confessou.
Germano foi juntar-se ao veterano padre Mário,
hoje com 63 anos, e ao padre Miguel Staron, outro descendente de poloneses,
na Pastoral Rodoviária. Em 1996, o Acre estava na lista dos estados ainda
não cobertos pela missão. O tal espírito viajante do padre Germano foi fundamental
para quebrar mais essa barreira. “Eu e o padre Miguel já somos conhecidos
nos postos acreanos”, orgulha-se. Para chegar ao Acre, o padre Germano teve
de cruzar a
pior estrada do Brasil em sua abalizada opinião de caminhoneiro, aquela
que liga Juína (MT) a Vilhena (RO). Ficou atolado e passou pela situação mais
dramática em seus quatro anos de boléia, uma história que entrou para seu
repertório de casos em roda de caminhoneiros.
Padre Germano contou a história do atoleiro
e muitas outras em seu primeiro contato com no., no fim da tarde de 24 de outubro, no pátio
do Posto Bicampeão, em Dom Cavati (MG). Ele descansava na cama de sua cabine
instalada na carroceria do caminhão. “Pode entrar. Não repare que é quarto
de solteiro”, foi logo brincando. A cabine tem, além da cama, uma mesa para
estudos, uma bancada com uma pia, armários embutidos, uma folhinha e um mapa
do Brasil na cabeceira, aparelho de ar condicionado, um espelho e uma placa
onde se lê “O senhor é meu pastor, nada me faltará”. A TV portátil capta os
sinais que o itinerário permitir e é mote para mais uma tirada de bom humor
do padre: “Eu não vejo o que eu quero, vejo o que ela quer. Até a TV do Edir
Macedo.”
Renan
Cepeda
O cansaço de uma viagem de 570 quilômetros –
entre Salinas, no norte de Minas, e Dom Cavati, na região do Vale do Aço –
não foram empecilho para que o padre Germano abandonasse o repouso para contar
que a missa da noite anterior havia sido um sucesso. “Eu calculo o público
pelo número de terços distribuídos. Foram 90”, referindo-se à celebração no
Posto Jenipapo, em Salinas. Já eram quase sete da noite do dia 24 quando o
sacerdote pediu licença para operar uma transformação de todos os dias. Primeiro,
deu ré no caminhão até que ele ficasse sob a cobertura iluminada das bombas
de combustível. Depois desligou o motor, abriu as portas da carroceria e mostrou
o segredo: um altar. “Por isso dizem que eu dirijo um caminhão-capela. Eu
levo a carga mais valiosa da estrada”, observou. Lentamente, forrou com uma
toalha branca o altar de fórmica, colocou sobre ela um crucifixo e um jarro
de flores de plástico. No manto branco está a inscrição “Nossa
Senhora da Estrada, abençoai os caminhoneiros”. Aos poucos, o pátio do
Posto Bicampeão foi enchendo de gente.
O primeiro a chegar foi o lavrador de café
e dançarino de salão Antônio Zorzan, de 80 anos. Veio com roupa de missa,
incluindo um elegante chapéu de feltro. “Eu vi o cartaz no posto e lembrei
da missa que assisti aqui no ano passado. É uma iniciativa especial. Quem
é motorista depende de Deus”, disse o lavrador antes da celebração, enquanto
das caixas de som do caminhão da Pastoral Rodoviária brotava a voz da dupla
Chitãozinho e Xororó. A missa começou um pouco depois das oito, o horário
previsto, porque o padre Germano esperou a chegada de um ônibus com um coral
da cidade vizinha de Inhabim, liderado pelo frentista Edson Lino da Silva.
O auxílio valioso do coral só foi possível porque as missas nos postos são
marcadas com um ano de antecedência. Os cartazes colados no posto já indicam
que a próxima missa da região será em 1o de maio de 2001, no Posto Campeão,
em Inhabim.
Hóstia no caminhão e
agradecimento por não ter morrido
O folheto amarelo da Missa
Rodoviária, distribuído aos fiéis, mostra que o foco principal da pastoral
está nos caminhoneiros. As palavras da homilia do padre Germano – já com uma
imaculada túnica branca sobre a surrada camisa de estrada – foram a eles dirigidas.
O momento mais bonito da celebração foi o ofertório, quando os caminhoneiros
levaram pneus, chaves de roda e carteiras de motorista para a benção com água
benta. A maioria deles fez questão de tomar a hóstia na comunhão.
Depois de uma hora de celebração, assistida
por 150 pessoas, o padre Germano ainda ficou um bom tempo conversando com
caminhoneiros. Um deles parecia aliviado. “Eu hoje poderia ter morrido. Quando
passei por aqui e vi a missa entendi que tinha que parar para agradecer a
graça de estar vivo”, contou o catarinense José Lenir Stanchak, de 40 anos.
Tinha motivos para agradecer. Por volta de onze da manhã do dia 24 de outubro,
quando vinha com seu caminhão de Caratinga para Dom Cavati, um tronco de eucalipto
caiu na pista 200 metros à sua frente. “Eu estava atrás de um ônibus cheio
e ele conseguiu frear. Eu não consegui e bati forte nele. Estou tremendo até
agora, mas ninguém saiu ferido”, lembrou. Stanchak estava levando 11.500 quilos
de móveis para a Paraíba e, mesmo atrasado com a carga, decidiu parar para
dormir depois da missa: “Nada paga a minha vida nem a de ninguém.”
No dia seguinte, já em direção ao Posto Falcão
Azul, em Periquito, o padre Germano lembrou as palavras de Stanchak para listar
os maiores inimigos dos caminhoneiros. “O sono, a pressa e o arrebite”, definiu
ele na boléia decorada apenas com um cachorrinho de pelúcia e um decalque
do Coritiba, seu time de coração. Arrebite é uma perigosa combinação de álcool
com remédios que contenham anfetamina, em geral controladores de apetite.
“O sujeito mastiga quatro comprimidos com conhaque e dirige até 48 horas sem
parar”, deu exemplo. Alguns caminhoneiros confessam ao padre o uso do arrebite:
“São poucos. É mais fácil confessar que saiu com uma prostituta de beira de
estrada ou que dirigiu embriagado. A confissão de caminhoneiro é coisa feita
num canto do posto, bem longe dos outros, escondido. Eles têm vergonha de
se confessar.”
A missa da noite de 25 de outubro no Posto
Falcão Azul, em Periquito, teve uma platéia bem diferente da habitual. Os
caminhoneiros eram minoria. A maior parte dos fiéis veio do outro lado da
pista. Bem em frente ao posto, na BR-381, está instalado há dois anos e oito
meses um acampamento do MST. Nada que assustasse um padre tarimbado como Germano
– e ainda por cima com uma longa história de convívio com lavradores sem terra.
“Caminhoneiro é assim. A gente nunca sabe o que vai encontrar na estrada”,
brincou. Dos 90 fiéis presentes à celebração, pelo menos 60 eram sem-terra.
Por isso o padre reservou algumas palavras de esperança aos acampados, fugindo
à sua temática habitual. Elisabeth Cândida, de 30 anos, gostou. “Estamos aqui
há quase três anos e só mesmo Deus sabe o que sofremos esse tempo todo”, disse
ela, ao lado de dois de seus cinco filhos. No final da missa, a acampada recebeu
um terço bento de presente do padre Germano.
O chimarrão de fim de noite encerrou o expediente.
Como sempre, o sacerdote tomaria um banho no posto, jantaria o prato dia como
oferta a casa, dormiria em sua cabine e partiria na manhã seguinte para mais
um destino. Itabira em 26 de outubro, Nova União em 27, Nova Era em 28, Pará
de Minas no domingo, 29. A programação está pronta até fevereiro de 2002.
“É um dia em cada lugar. Eu não gosto de correr, mas às vezes tenho que pisar
fundo”, confessa o padre-caminhoneiro, no melhor estilho "fé em Deus
e pé na tábua". Atenção, guardas rodoviários de todo o país, anotem essa
placa: AIC-5939. Na traseira do veículo está pintado “Obrigado, Senhor”. Se
um sujeito encorpado for flagrado acima do limite de velocidade ao volante
desse caminhão, perdoem-no. Ele deve estar atrasado para a próxima missa.