Pastoral Rodoviária e Congregação da Missão

01) PROJEÇÃO DO FILME “O SAL DA TERRA” (o filme só é disponível em fita cinematográfica; precisa tratar com o Sr. José Olímpio; talvez possa ser feita uma cópia particular em DVD; o filme poderia ser projetado previamente, num horário livre).

02) INTRODUÇÃO

Para iniciar a consideração da Pastoral Rodoviária sob o viés vicentino, é importante lançar um olhar sobre a novidade das atitudes pastorais de São Vicente de Paulo. Ele não inventa novas ações na Igreja; ele, com sensibilidade cristã aguda, percebe faltas existentes no “tecido” da pastoral global, toma atitude e supre (preenche, ou tenta preencher) essas faltas. NOTA: É possível enxergar aqui uma semelhança bem próxima com o trecho bíblico de 1Jo 2, 8-9.
Assim acontece, p.ex., com ação caritativa. O atendimento de necessitados era praxe na Igreja desde o início (esmolas distribuídas pelos Apóstolos, instituição de diáconos, Dorcas em At 9, 36-42, esmoleiros, etc.). São Vicente de Paulo não inventa a caridade em Chatillon-les-Dombes, ele a repensa e organiza para que atinja melhor seus objetivos. Depois, dá seqüência na organização e a estende para outros setores, conforme as circunstâncias surgidas (lembremos da nobreza incluída na ação caritativa, da distribuição de sopa para os famintos, da primeira creche-orfanato, das Filhas da Caridade). Assim acontece também com ação missionária, com a formação de clero (um leque amplo de “jogadas” pastorais: seminários, conferências, etc.) e com outras “novidades” (promoções) vicentinas.
Nos tempos atuais, percebe-se também diversas lacunas existentes na pastoral global (entre outras, no mundo do trabalho e no fenômeno da mobilidade humana). Podemos sublinhar aqui, especificamente, o trânsito e o transporte. Não é possível ignorar, p.ex., 50 mil mortos em acidentes de trânsito nas ruas e nas estradas e mais de 2 milhões de pessoas vinculadas ao transporte rodoviário no Brasil. É urgente, urgentíssimo, tomar atitudes pastorais para humanizar e cristianizar a situação em ambos os campos. Esta é a razão de ser da Pastoral Rodoviária.
O filme: “O SAL DA TERRA” apresenta situações que não são novidades para quem trabalha na pastoral em qualquer setor. Essas situações nas ruas e nas estradas, porém, não eram tratadas em ambiente próprio. Com a Pastoral Rodoviária, são tratadas assim. E de maneira organizada. – Isso parece ser o ponto-chave: a Pastoral Rodoviária não é uma invenção ou inovação; é o tratamento pastoral das situações humanas vividas no ambiente de trânsito e de transporte rodoviários.

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SUGESTÕES: A.- O que se segue é muito maçante, embora bastante explicativo. Talvez, depois da INTRODUÇÃO, seria mais indicado projetar o data-show sobre a Pastoral Rodoviária, organizado (em 2006) pelo Pe. Joelson Sotem, C.M. Esse data-show necessitaria de atualização e “enxugamento”. A apresentação do data-show seria o ponto final da exposição sobre a Pastoral Rodoviária.
B.- O texto abaixo (elaborado e apresentado no II ENCONTRO INTERNACIONAL DE PASTORAL DA ESTRADA em Roma, nos dias 01-02/12/06) poderia ser impresso e distribuído aos participantes da exposição para uma leitura pessoal dos interessados. Isso facilitaria a compreensão inequívoca da Pastoral Rodoviária. Aliás, esse texto serviu de base para o data-show.
C.- Acredito que o texto do ano 2006 necessite também de correções oportunas e atualizações pertinentes. Precisa corrigir até siglas bíblicas...

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03) COMO SURGIU A IDÉIA DE INICIAR A PASTORAL RODOVIÁRIA?

Um padre amigo, que viera da Europa para nos fazer visita, quando tinha chegado perto de Brasília (a capital nacional), ficou espantado com placas rodoviárias, as quais informavam a distância daquele ponto para diversos Estados do Brasil... A maioria das distâncias era medida em milhares de quilômetros... – “Deixem que eu tire a foto destas placas, porque na Europa ninguém vai acreditar nestas distâncias dentro do um mesmo país!” – pediu... Pois é, isso é o Brasil. Do tamanho de toda a Europa (sem a parte russa). Um verdadeiro “continente”. Com muita gente (um pouco mais de 180 milhões de habitantes). Com muitas estradas. E com muito tráfego de automóveis, camionetes, caminhões e ônibus.
Nesse ambiente inseriu-se a Pastoral Rodoviária, tornando-se – se usarmos palavras do Padre Richard McCullen, Superior Geral (na época) da nossa Congregação da Missão, proferidas em 1988 – “Questa é la piú piccola Casa della Missione e la piú grande parrocchia del mondo”.
A Pastoral Rodoviária no Brasil teve início no ano 1976. Desde o começo, optamos pelo serviço religioso destinado aos profissionais do transporte, principalmente os caminhoneiros. Há no Brasil cerca 1.500.000 de caminhoneiros (não falando de outros componentes do Povo Rodoviário), e é de admirar que a Pastoral Rodoviária não surgisse bem antes daquele ano 1976 (mas eu sonhei com este tipo de trabalho já desde 1966)!

04) A IDÉIA DA PASTORAL RODOVIÁRIA E SUA DINÂMICA

Acredito que a idéia fundamental de qualquer gesto pastoral (também de um gesto que possamos identificar como pertencente ao ambiente rodoviário) é a valorização da pessoa humana perante Deus. Mesmo que sejam gestos bastante superficiais, como são, p.ex., festas religiosas externas (na nossa área de interesse: a Festa dos Motoristas). Mais ainda, quando se trata de fazer um gesto de evangelização genuína.
Quanto à Pastoral Rodoviária no Brasil, surgiu de encontro de duas idéias muito próximas: a idéia de D.Geraldo Micheletto Pellanda, DD.Bispo Diocesano de Ponta Grossa-PR e a idéia do autor destas linhas.
D.Geraldo viu o volume de tráfego rodoviário nas estradas que cortam a Diocese de Ponta Grossa-PR e preocupou-se em encontrar um modo de levar o Evangelho para este ambiente. Foi por isso que, participando do Concílio Vaticano II, lá pelo ano 1965, providenciou a cópia da imagem de Nossa Senhora da Estrada (baseada no quadro de “Madonna della Strada” da igreja “Del Gesú” em Roma). D.Geraldo sonhava com a construção de uma capela e de um centro de atendimento pastoral dos motoristas em viagem.
A idéia de atendimento específico aos motoristas (principalmente aos profissionais do volante) também foi acalentada por mim durante muitos anos. Entretanto, nunca imaginei que ia assumir pessoalmente esse serviço. Tive razões para isso: dificuldades com e língua - sendo estrangeiro - e a falta de identificação mais aprofundada com o ambiente rodoviário. Foi justamente D.Geraldo quem me desafiou a encarar a Pastoral Rodoviária. O que lembro hoje, é que - na época - não tive alguma idéia concreta de como começar e conduzir esse trabalho. Tive, sim, algumas pistas: não quis me prender a algum centro de atendimento pastoral dos motoristas em viagem, mas estar presente no ambiente de trabalho do pessoal da estrada, acompanhar os motoristas profissionais, sentir a sua vida e inserir nessa vida o Evangelho. A idéia concreta da Pastoral Rodoviária foi forjada pelos acertos e erros dos anos subseqüentes.
Logo depois de iniciada a Pastoral Rodoviária no Brasil, veio nos traçar caminho o documento da Pontifícia Comissão para as Migrações e o Turismo sobre o apostolado da estrada (cf. “Comunicado Mensal da CNBB”, Nº 313/Outubro de 1978). Agora também contamos com o amplo respaldo das decisões e do planejamento da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), bem como do seu setor da Mobilidade Humana (Comissão Episcopal para o Serviço da Caridade, da Justiça e da Paz / Setor Pastorais da Mobilidade Humana).
Para finalizar, a idéia atual da Pastoral Rodoviária é seguinte:
- valorização, pelo Evangelho, de quem vive e trabalha no ambiente rodoviário;
- presença ambulante da Igreja nas estradas de todo Brasil;
- ajuda na organização social dos motoristas profissionais (conforme o lema: “O povo unido - pela força de Deus - jamais será vencido!”).

05) METODOLOGIA APLICADA NA PASTORAL RODOVIÁRIA

O ponto de partida foi e é a Missa (denominada: Missa Rodoviária ou Missa dos Motoristas). Partimos da colocação do Vaticano II, de que a Missa é “a fonte e o cume” da vida cristã. Não instrumentalizamos a Missa para “arrebanhar” o povo. Simplesmente não idealizamos a vida cristã, aceitamo-la em sua dimensão real como é vivida pelo pessoal que trabalha na estrada (com suas virtudes e deficiências). E – já que o povo identifica Missa como a expressão máxima do catolicismo – tornamo-la como ponto de referência.
No entanto, o nosso trabalho não se restringe somente à Missa. A Missa é, sem dúvida, o ponto alto do dia. Mas, durante o dia todo, marcamos a presença ambulante da Igreja nas viagens e durante as visitas aos estabelecimentos rodoviários (postos de combustível, restaurantes e lanchonetes rodoviários, oficinas, borracharias, postos de polícia rodoviária, etc.).
As visitas têm como finalidade:
- criar um ambiente de amizade nas estradas;
- valorizar, pelo Evangelho, a quem vive e trabalha no ambiente rodoviário.
Para conseguir isso, usamos a conversa fraterna, a distribuição de pequenas lembranças e folhetos com mensagens ou com avisos.
A própria Missa acontece, em geral, no fim da jornada:
- no pátio de um estabelecimento rodoviário, que o pessoal da estrada considera como o seu chão;
- dentro do caminhão-capela, com o povo presente no pátio;
- a pregação focaliza assuntos vividos pelos participantes à luz do Evangelho;
- a Missa é simples; não queremos criar ilusão duma Missa especial, diferente da que se faz nas comunidades paroquiais (não pretendemos criar uma “Igreja Rodoviária”; queremos, sim, ajudar na integração do pessoal da estrada na vida total da Igreja).

06) COMO É A RECEPTIVIDADE DOS FIÉIS? QUANTAS PESSOAS COSTUMAM FREQÜENTAR UMA MISSA NA ESTRADA?

Cada Missa é diferente. Já fizemos celebrações com a presença de mais de 2.000 pessoas (falando apenas das Missas nas estradas e não durante as Festas dos Motoristas), e também com um pequeno grupo de cinco a dez pessoas. O padrão é: 90-100 pessoas adultas (com a média de caminhoneiros: 10 participantes).
Afora os caminhoneiros, lidamos na estrada com 4 grupos humanos:
01) O pessoal dos serviços rodoviários, que também faz parte do Povo Rodoviário: o pessoal que opera um posto de combustível, um restaurante, uma lanchonete, uma borracharia, uma oficina mecânica, etc., participa em muito bom número e bem.
02) Os vizinhos e amigos dum posto de combustível formam outro grande grupo e participam muito bem (a menos que alguém tenha vindo por curiosidade..., este não volta nunca mais).
03) Gostaríamos de contar com os outros trabalhadores do transporte rodoviário, como taxistas, motoristas de ônibus, viajantes profissionais e policiais rodoviários, mas devido ao seu tipo de trabalho (compromissos, horário, etc.), a presença deles – em geral – é escassa.
04) A presença de turistas é mínima.

07) CASAMENTOS E BATIZADOS? O CONFESSIONÁRIO É MUITO VISITADO PELOS MOTORISTAS PROFISSIONAIS?

Quanto aos casamentos, batizados e funerais: houve vários casos, principalmente nos primeiros anos, quando as viagens eram restritas ao Estado do Paraná (1976-80). Depois, praticamente, não. Os batizados e casamentos exigem uma boa preparação no seio de uma comunidade estável. Não é possível atendê-los “en passant”.
Quanto ao Sacramento da Penitência: se levarmos em conta a qualidade de confissões (o número não nos interessa), então a situação é alentadora. Os caminhoneiros que fazem as confissões são pessoas sérias. Nem sempre sabem se expressar (mas nós ajudamos), porém procuram a Deus com seriedade. – A maioria das confissões acontece nos pontos finais de viagem, quando o motorista profissional não se sente apressado pelo horário a cumprir.

08) QUAL É AVALIAÇÃO SOBRE A RELIGIOSIDADE DOS CAMINHONEIROS BRASILEIROS?

São trabalhadores do transporte. É gente honrada! E de muitíssima fé! Do ponto de vista psicológico, dá para aventar uma hipótese: qualquer pessoa, que vive em situação de contínua falta de estabilidade, procura alguns pontos firmes para ancorar a sua vida. Identifico sempre dois pontos firmes na vida dos caminhoneiros: Deus e família. – Para os caminhoneiros, porém, faltam oportunidades de progredir na fé. E exprimi-la. Aqui está o grande desafio da pastoral rodoviária. Como ajudá-los na vivência da fé?

09) QUAIS OS MAIORES DESAFIOS QUE SÃO ENFRENTADOS PELOS CAMINHONEIROS NA ROTINA DA PROFISSÃO?

Existem desafios de diversos tipos. Aqui aponto apenas três tipos:
01) Normais (ao menos para mim), que o motorista enfrenta como pode... Como dizem os caminhoneiros: “Quem não quer se molhar, não sai na chuva!”.
02) Passíveis de mudança (para melhor ou para pior); condições de trabalho (carga horária, exploração econômica, assaltos, etc.), condições das estradas (não é bom nem comentar!), condições de saúde, condições de convivência, e muitos outros. A mudança para melhor, a meu ver, é possível somente com a união e a organização da classe dos caminhoneiros.
03) A solidão. Este é o maior desafio (muitas vezes o percurso diário excede 1.000 km, e a viagem pode durar dias, semanas e até meses). Aqui não falo tanto de um homem (ou mulher, porque existem também caminhoneiras) estar passando horas e horas sozinho (a) na cabine do caminhão... Falo do afastamento da família: único ambiente, onde um homem (ou mulher) ama e sente-se amado (a) de verdade. Esta solidão pode desestruturar qualquer um...
Na nossa ação, ajudamos o Povo Rodoviário encontrar-se com Deus (o que dá sentido à vida e ao trabalho), fazemos sentir um pouco mais os laços que unem qualquer pessoa com a sua família, apoiamos uma abertura maior para a convivência fraterna e solidária. Não é muito, mas já é alguma coisa.

10) COMO É O DIA-A-DIA DE UM PADRE NA ESTRADA?

Os meus colegas da equipe da Pastoral Rodoviária – Padre Miguel Staron, C.M., e Padre Germano Nalepa, C.M. – estão presentes nas estradas do Brasil durante aproximadamente 230 dias de cada ano.
O nosso dia-a-dia consiste basicamente em viagem (os meus colegas percorrem anualmente mais ou menos 50.000 km cada um), visitas aos estabelecimentos rodoviários, e a Missa (em geral: à noite) .
01) Viagem: além da função óbvia de favorecer o deslocamento, serve para destacar a presença da Igreja nas estradas, no meio do Povo Rodoviário. A viagem diária compreende – em geral – de 100 a 300 km (as vezes, é bem mais comprida; em várias ocasiões, houve viagens de mais de 500 km diários).
02) Visitas aos postos de combustível, restaurantes, lanchonetes, borracharias, oficinas, postos de polícia rodoviária, e assim por diante (em média: 20 visitas por dia). A finalidade destas visitas é semear amizade, conversar, atender diversos pedidos (também aceitar os pedidos das futuras Missas). Este é o trabalho principal no esquema da Pastoral Rodoviária.
03) Finalizamos a viagem e as visitas com a Missa (em geral, à noite). É o ponto alto do dia. É a recapitulação da vida e do trabalho. É o reabastecimento.
Afora isso:
a.- Planejamos o trabalho (as rotas futuras, o esquema das Missas nas estradas, o material necessário, etc.).
b.- Satisfazemos as necessidades culturais próprias (um livro, CD, rádio, jornal na TV ou impresso, material de estudo).
c.- Os meus colegas (eu: muito pouco) dedicam também um bom tempo à comunicação mútua e à troca de experiências.

Pe.Marian Litewka, CM
da Pastoral Rodoviária no Brasil

NOTA: A Pastoral Rodoviária no Brasil dispõe de site http://www.pastrodo.com.br/ (criado no ano 2001).