http://noticias.uol.com.br/cotidiano/2009/07/03/ult5772u4534.jhtm
03/07/2009 - 07h00
Um ano depois, padre baloeiro vira tabu para pastoral pela qual morreu
Maurício Savarese
Do UOL Notícias
Em São Paulo
Quando o padre Adelir de Carli pegou seus balões coloridos e alçou voo sem rumo, a Pastoral Rodoviária, entidade que auxilia caminhoneiros divulgada por ele na folclórica empreitada, ficou em evidência global. Mas junto da fama veio o ridículo: apelidos como São Balão e prêmios pela morte mais estúpida de 2008 brotaram.
A notoriedade em nada ajudou o grupo, que foi forçado até a fechar as portas após as doações minguarem. Mas nesta sexta-feira (3), um ano depois de o corpo do religioso ser encontrado no mar, os viajantes voltavam a ter ajuda da entidade - embora o homem da infame aventura, morto pela causa, já tenha sido abandonado por eles.
Além de desaparecer em nome da pastoral, que hoje trabalha com três caminhões-capela nas rodovias do país, o padre também desapareceu do site da Pastoral Rodoviária. Antes de ele morrer, o endereço contava com a seção "Voar Social", destinada ao evento que buscava atrair a mídia e divulgar o grupo, sem deixar de prestar assistência espiritual e social aos caminhoneiros. Não sobraram nem fotos.
Na apresentação da história da Pastoral Rodoviária, tampouco há citação a Adelir - fala-se apenas que a entidade ligada à Congregação da Missão Província do Sul, de Curitiba, atua nas estradas do Brasil desde 1976 e, tal como é no país, tem perfil "único no mundo".
Em todo o site, a solitária citação ao religioso encontrada pela reportagem do UOL Notícias é a reprodução de um texto do jornal "Gazeta do Povo", citando o acidente com o "padre voador" cujo corpo reapareceu há um ano, no mar de Maricá, litoral fluminense.
O padre baloeiro tampouco aparece nos comentários dos seus sucessores. Perguntado pela terceira vez sobre se a fama de Adelir ajudou a promover a entidade, o padre Miguel Staron, um dos novos coordenadores, limitou-se a dizer: "O pessoal tem contribuído sim, está tudo normal. O importante é continuar o trabalho nas rodovias, alertando aos motoristas sobre os riscos da bebida e das drogas. Falar de Deus, que é o mais importante".
Os padres Marian Litewka e Germano Nalepa não foram encontrados para fazer comentários. Segundo um assessor da pastoral, não o fizeram provavelmente por estarem rodando demais pelas estradas.
Injustiçado?
Em Paranaguá, cidade onde Adelir trabalhava, os fiéis sentem
falta do padre que antes do voo rumo a Dourados, no Mato Grosso do Sul, tinha
ganhado notoriedade em 2006, ao denunciar policiais que agrediam moradores
de rua. Mas um dos frequentadores da paróquia onde o religioso trabalhava
afirmou sob condição de não ter o nome revelado que houve
falta de sensibilidade entre os próprios fiéis por conta da
forma como o padre morreu.
"Claro, a maioria reconhece tudo que ele fez e sente saudade. Mas tem
gente que ficou com vergonha, porque apareceu muita piada por causa dos balões.
Acho que ele foi um pouco injustiçado, porque fez um trabalho bonito
e importante ao longo da vida inteira. Ele merecia ser lembrado por isso.
Nós rezamos por ele muitas vezes, mas acho que mesmo entre quem rezou
faltou mostrar melhor a dor que nós sentimos com a perda dele",
afirmou.
Depois do malfadado voo, a Pastoral Rodoviária sofreu com falta de recursos e com um assalto na última Páscoa. Adelir, disseram fiéis na época, era o principal responsável pelas finanças e pela promoção da entidade. O motivo central da empreitada que causou sua morte era trazer verbas para a construção de 100 quartos para caminhoneiros em Paranaguá, onde funciona um dos portos mais importantes do país. Agora, depois das dificuldades dos últimos meses, as instalações estão sendo erguidas.
Adelir afirmava ter experiência com montanhismo, mergulho, paraquedismo e parapente. No início de 2008, ele tinha conseguido viajar com 500 balões de Ampére, no sudoeste do Paraná, a San Antonio, na Argentina - uma distância de 110 km, ficando 4h15min no ar.
Na viagem de 20 de abril, o padre pretendia bater o recorde de tempo na modalidade balão de festa, permanecendo alçado por 20 horas, com 1.000 balões. O tempo chuvoso e os ventos acabaram levando o padre a mais de 50 km do litoral catarinense.
- - -
Resposta do Padre Mário:
A RESPEITO DA PASTORAL RODOVIÁRIA
Com espanto, li a matéria “Um ano depois, padre baloeiro vira tabu para pastoral pela qual morreu”, veiculada por UOL Notícias no dia 03/07/09. Ao ler, pensei comigo: poucas linhas e tanta confusão! Já que não admito haver má vontade do autor, só posso creditar essa confusão à pressa de alguém que, pressionado pela data (justamente o dia 3 de julho), tivesse que escrever e, não dispondo de dados suficientes, apelou para uma rápida pesquisa telefônica e eletrônica (internet). Mas vamos aos fatos:
O autor, candidamente, confunde duas equipes ligadas à Pastoral Rodoviária. Pelo texto, suponho que tenha telefonado para Paranaguá-PR e entrado em contado com o grupo que esteve acompanhando o falecido Padre Adelir de Carli. Isso fica patente nas frases seguintes: << A notoriedade [da tragédia do Padre Adelir] em nada ajudou o grupo, que foi forçado até a fechar as portas após as doações minguarem. Mas nesta sexta-feira (3), [...] os viajantes voltavam a ter ajuda da entidade [...] >>. Pode saber desses detalhes somente quem entrou em contato com o grupo (eu, por exemplo, nem sabia disso). Palavras seguintes confirmam a minha suposição: << Mas, um dos frequentadores da paróquia onde o religioso trabalhava afirmou sob condição de não ter o nome revelado que houve falta de sensibilidade entre os próprios fiéis por conta da forma como o padre morreu. “Claro, a maioria reconhece tudo que ele fez e sente saudade. Mas, tem gente que ficou com vergonha, porque apareceu muita piada por causa dos balões. Acho que ele foi um pouco injustiçado, porque fez um trabalho bonito e importante ao longo da vida inteira. Ele merecia ser lembrado por isso. Nós rezamos por ele muitas vezes, mas acho que mesmo entre quem rezou faltou mostrar melhor a dor que nós sentimos com a perda dele”, afirmou. Depois do malfadado voo, a Pastoral Rodoviária sofreu com falta de recursos e com um assalto na última Páscoa. Adelir, disseram fiéis na época, era o principal responsável pelas finanças e pela promoção da entidade. O motivo central da empreitada que causou sua morte era trazer verbas para a construção de 100 quartos para caminhoneiros em Paranaguá, onde funciona um dos portos mais importantes do país. Agora, depois das dificuldades dos últimos meses, as instalações estão sendo erguidas >>. Tudo bem! No entanto, por que tenho acenado antes à confusão do autor no discernimento das equipes ligadas à Pastoral Rodoviária? São as frases seguintes: << Além de desaparecer em nome da pastoral, que hoje trabalha com três caminhões-capela nas rodovias do país, o padre também desapareceu do site da Pastoral Rodoviária. [...] O padre baloeiro tampouco aparece nos comentários dos seus sucessores. Perguntado pela terceira vez sobre se a fama de Adelir ajudou a promover a entidade, o padre Miguel Staron, um dos novos coordenadores [etc., etc...] >>. Acontece que a nossa equipe (verdadeira) ligada à Pastoral Rodoviária trabalha nas estradas já desde o ano 1976, quando o futuro Padre Adelir era ainda garoto (foi ordenado sacerdote no ano 2003). Os 3 caminhões-capela são nossos (o primeiro, desde 1981). O site “www.pastrodo.com.br” é nosso (é melhor dizer: é a gentileza de um colega nosso), mas nunca houve no site alguma menção ao Padre Adelir (para, de repente, “desaparecer”), porque o próprio não quis isso, bem como nunca houve nele qualquer seção “Voar Social” (se isso não é uma invenção do autor, então deve tratar-se de um site da responsabilidade do Padre Adelir e de seu grupo). O Padre Miguel Staron é da nossa equipe; mas, não pode ser taxado de “um dos novos coordenadores” (um tipo de “sucessor” do Padre Adelir), porque está trabalhando conosco desde 1993 (enquanto o Padre Adelir, repito, foi ordenado sacerdote somente em 2003 e começou a pensar numa forma própria de fazer a pastoral rodoviária apenas em 2004). Para finalizar esta parte, insisto mais uma vez: o Padre Adelir não quis colaborar conosco de jeito nenhum, quis criar sua própria forma de fazer a pastoral rodoviária (e tinha toda a liberdade de fazer isso). Diante do que tenho apresentado até agora, não há razão alguma de o Sr. Maurício Savarese – redator do UOL Notícias - “pendurar” em nós a responsabilidade pelo abandono da memória do falecido Padre Adelir. Respeitamos, mesmo post-mortem, a vontade dele de agir em separado. E continuamos rezando por ele, porque é nosso irmão.
Meus encontros com o Padre Adelir. Foram apenas dois: um, em 2004, quando veio falar comigo pedindo ajuda financeira para a aquisição do terreno (em Paranaguá-PR) destinado à construção de um alojamento para caminhoneiros; o segundo aconteceu duas semanas antes da morte trágica dele (não me esclareceu o motivo da visita, trocamos apenas amenidades, mas no meio da conversa apareceu também o plano dele de fazer o segundo vôo com balões, justamente aquele vôo que o levou depois à morte...). No primeiro encontro, o Padre Adelir lembrou outros nossos encontros que teriam acontecido nos anos 80 do século passado: estive celebrando várias missas para caminhoneiros nos postos de seu tio e de seu primo, enquanto ele, ainda adolescente, executava ali alguns serviços. É claro que eu não conseguia lembrar daqueles fatos antigos, mas não discordei e acreditei na sua palavra. Quanto à ajuda financeira para a aquisição do terreno e construção de alojamentos para caminhoneiros, fui claro: da minha experiência de quase 30 anos na Pastoral Rodoviária (acompanhando diariamente caminhoneiros na estrada) e mais que 40 anos de sacerdócio, tentei explicar que o caminhoneiro não costuma abandonar seu veículo para ir dormir num alojamento (mais ainda num porto); ele dorme mesmo na cabine do caminhão... O Padre Adelir (sem praticamente nenhuma experiência na pastoral rodoviária) foi irredutível na sua tese. Separamo-nos na amizade; cada um, porém, com seu ponto de vista. O mesmo repeti a ele no segundo encontro. Mas, em 2008, aquela construção (já em andamento) parecia ser o sonho da vida dele. Pagou caro, muito caro, pelo seu sonho. Lamento isso, porque acho que não vai ter utilidade alguma para caminhoneiros. Nem mil desses alojamentos valeriam à vida de um padre.
Mais dois detalhes referentes ao que tem escrito o Sr. Maurício Savarese:
- a/ No artigo dele consta que << os padres Marian Litewka e Germano
Nalepa não foram encontrados para fazer comentários; segundo
um assessor da pastoral, não o fizeram provavelmente por estarem rodando
demais pelas estradas >>. Não levo em conta o tom quase jocoso
do autor e quero esclarecer a situação. O Padre Germano cumpre
a sua rota em algum ponto do Brasil (está presente nas estradas ao
longo de aproximadamente 240 dias por ano). Eu estou em tratamento de saúde;
portanto, vivo agora permanentemente em Curitiba-PR. O meu endereço
é conhecido, o telefone e e-mail também. Não me encontra
apenas quem não quer mesmo... Quanto ao pretenso nosso “assessor”,
desconheço a tal figura (mal temos dinheiro para custear o trabalho
pastoral, não podemo-nos dar ao luxo de contratar algum funcionário).
Talvez o Sr. Maurício possa explicar quem é o fulano... –
b/ Teimo em não acreditar na malícia da citação,
colocada entre aspas, “único no mundo” na frase: <<
Na apresentação da história da Pastoral Rodoviária,
[...] fala-se apenas que a entidade [suponho que o autor trata aqui da pastoral
rodoviária, chamando-a de “entidade”] ligada à Congregação
da Missão Província do Sul, de Curitiba, atua nas estradas do
Brasil desde 1976 e, tal como é no país, tem perfil “único
no mundo” >>. Seria lamentável que alguém quisesse
abordar assuntos que realmente não conhece. Pois bastaria apenas encontrar
na internet o documento ZP07011606 (de 16/01/07) no http://www.zenit.org/article-13737?l=portuguese,
também acessível em italiano e espanhol, com o título
“CONCLUSÕES DO II ENCONTRO INTERNACIONAL DA PASTORAL DA ESTRADA”.
O trabalho pastoral da nossa equipe tem o reconhecimento internacional e,
principalmente, da parte da Igreja. E não é uma ufania dizer
que a experiência é “única no mundo” (desde
1976), porque, embora já existam pastorais rodoviárias em vários
países, invariavelmente são destinadas aos motoristas de automóveis.
A nossa é, cronologicamente, a 2ª no mundo (após a Espanha),
e, desde o início, fizemos opção, quase exclusiva, de
servir perto de 2 milhões de caminhoneiros no Brasil. Apenas recentemente,
a mesma opção foi assumida – graças a Deus! –
também na Alemanha (é o país que está no centro
do trânsito de caminhoneiros de toda a Europa). Nos últimos anos,
participei de vários encontros latino-americanos da mobilidade humana,
tentando estender a nossa experiência para outros países do continente
(afinal, o Brasil não é uma ilha).
É só isso. Desculpem a extensão do desabafo. Coloco-me
totalmente à disposição de UOL Notícias, do Sr.
Maurício Savarese e de qualquer outra pessoa que queira algum esclarecimento
a mais. Deus os ilumine e abençoe!
Pe. Marian Litewka, CM (da Pastoral Rodoviária)
Em tempo:
Intervenções entre colchetes [ ] nas citações
são de minha total responsabilidade.
Para facilitar, anexo, a este aqui, mais 2 documentos (se interessar a alguém):
o documento ZP07011606 (de 16/01/07) no http://www.zenit.org/article-13737?l=portuguese,
com o título “Conclusões do II Encontro Internacional
da Pastoral da Estrada”; e o documento “Pastoral de la carretera
en Brasil”, apresentado, em espanhol, no II Encontro Internacional da
Pastoral da Estrada - veja “Marian,SPAG (4)”.
Curitiba, 3 de julho de 2009
Pe. Marian Litewka