Jonathan Campos - Gazeta do Povo - Curitiba-PR - 04.05.2008
Caderno Vida e Cidadania, Página 14:

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“O que é bom já nasce Deus”
* O título da matéria é uma frase de pára-choque de caminhão
Saga dos padres estradeiros do Paraná inspira longa-metragem O sal da terra, road movie dirigido pelo cineasta Elói Pires Ferreira

Publicado em 04/05/2008 | José Carlos Fernandes

O polonês Marian Litewka tem 71 anos e um milhão de quilômetros rodados. O curitibano José Carlos Chacorowski, 51 anos, soma 500 mil quilômetros só no Brasil. Ele já morou no Congo e circulou por lá. O campo-magrense Germano Nalepa, 52, manda multiplicar 13 anos por 50 mil quilômetros para ver o que dá: 650 mil quilômetros e não se fala mais nisso. Em comum – além do velocímetro digno de caminhoneiro velho de guerra –, Marian, José e Germano têm o fato de serem padres da Pastoral Rodoviária, uma das ações mais originais da Igreja Católica.

De três semanas para cá, o trabalho realizado por sacerdotes em rodovias e em postos de combustíveis deu de ganhar o noticiário. Primeiro foi o acidente envolvendo Adelir de Carli – o “padre voador” – numa busca insana de conseguir verbas para construir um abrigo para caminhoneiros em Paranaguá. Depois veio a estréia do longa-metragem O sal da terra, do diretor paranaense Elói Pires Ferreira, em cartaz nos cinemas da cidade.

O primeiro assunto causa calafrios e a ressalva educada de que a Pastoral Rodoviária dos vicentinos – congregação religiosa à qual o trio pertence – não é a mesma pastoral encabeçada pelo padre De Carli. Quanto ao filme, é só alegria. Há cerca de dez anos, quando Eloy e o produtor J. Olímpio decidiram mostrar na tela grande o Brasil de beira de estrada, procuraram o convento Vicentino do Alto São Francisco em busca de Marian, pioneiro da Pastoral Rodoviária. A idéia era produzir um roteiro do ponto de vista de um padre, que viajasse de caminhão, celebrando missas em locais onde se depara com toda sorte de mazelas humanas.

Bateram na porta certa. Marian não só aceitou o desafio como forneceu vasta matéria-prima para o filme. Ao assistir a O sal da terra ele identificou várias passagens inspiradas livremente em suas memórias. O padre polonês passou nada menos do que 30 anos no asfalto. E ainda não se considera aposentado. Desde 2006, cuida das artroses e outras heranças deixadas pela má alimentação e pelas longas jornadas noite adentro. Se não puder pôr a mão novamente em seu caminhão Volkswagen – do tipo usado para entregas –, quer dar início à Pastoral dos Taxistas. Ou, voltar para a Polônia natal.

De tão carismático, Marian costuma intimidar seus colegas de claustro, não importa a quilometragem. José Carlos Chacorowski, por exemplo, ficou tão famoso no ofício que acabou rebatizado de “Padre Zé da Estrada”. A bordo de seu caminhão-capela, o religioso chegou aos rincões do país nos sete anos em que integrou o projeto. Mesmo assim, recomenda: “Foi um momento riquíssimo de minha vida sacerdotal. Mas o Marian é o nosso Pelé.” Padre Germano, idem. Ele conversou com a reportagem por telefone, do Posto Piquiri, em Pedro Gomes, em Mato Grosso do Sul, minutos antes de uma missa para pelo menos 160 caminhoneiros. “Tenho 13 anos de estrada e me inspirei no Marian.” O quarto padre da equipe, Miguel Staron, 53 anos, celebrava no mesmo momento no Posto Pegoraro, em Coxim, também em Mato Grosso do Sul. Juntos, os dois presbíteros rodoviários rezam cerca de 600 missas por ano em postos de combustíveis.

A história de Marian Litewka mereceria um novo filme de Pires Ferreira. Ainda menino, na Cracóvia de 1949, foi coroinha de Karol Wojtyla – o futuro Papa João Paulo II. Mais de uma vez, ao contar esse episódio, houve quem desdenhasse. Mesmo assim, em nome dos velhos tempos, o Papa recebeu Marian na Cúria, por ocasião de sua visita a Curitiba, em 1980. Em 1986, na Itália, o padre tomou café com o pontífice em Castel Gandolfo. Os caminhoneiros não iam acreditar. Mas pouco importa. O coração de Marian está para a Pastoral Rodoviária como a cruz para a estrada.

A origem da pastoral foi uma leitura de juventude, um romance de Bruce Marshall em que havia um padre que rezava missas num mercado. Em 1962, ao ser mandado para o Brasil, o recém-ordenado Litewka tinha planos de fazer algo assim, diferente, numa nação em que julgava haver apenas samba e mato. Ao chegar, viu que poderia ser ainda pior. Sua viagem para o Paraná esbarrou numa queda de barreira na BR-116, o que o obrigou a uma maratona dantesca pela Estrada da Ribeira. “Para ajudar, eu não falava uma palavra em português. Imagine o primeiro sermão que fiz, decorado. As pessoas vinham me dizer: ‘Padre, como o senhor fala bem’”, diverte-se. A língua portuguesa acabou sendo aprendida com a leitura da revista Seleções do Reader’s Digest.

Foi justamente a dificuldade com o idioma que atrasou os planos missionários do polonês. “Fui trabalhar em Mafra-SC, onde passava o único asfalto para o Sul. Sabia de um local onde os caminhoneiros paravam. Mas me faltava a linguagem do colo da mãe para poder me comunicar com eles.” Anos depois, desafiado por dom Geraldo Pellanda, então bispo de Ponta Grossa (PR), começou a esboçar seu projeto. Em março de 1976, sem saber muito bem como dar conta do recado, Marian fez a primeira missão rodoviária, cumprindo a rota Imbituva – Cascavel (PR). “Eu mal tinha coragem de falar com as pessoas nos postos. Achei que não ia dar certo.”

Seus superiores também. Dizia-se que estrada era lugar de prostituta e de polícia. Agora ia ser também de padre. “Três pês”, brinca Marian. Mas ele foi à forra mesmo assim. Em agosto daquele mesmo ano foi a vez de pregar em Paranaguá. Na hora da missa, havia sete pessoas: um motorista de Irati-PR, um taxista local e a mulher, duas devotas, o vigário da Igreja do Rocio e o próprio Marian. “Quase larguei mão. A solidão é o pano de fundo de toda essa história. Senti na pele como é a vida dos motoristas. Eles saem de casa sem saber se vão sobreviver. E se sentem desvalorizados, vistos como mulherengos e malandros de estrada”, conta, sobre os profissionais que, segundo a Confederação Nacional dos Transportes (CNT – leia nesta página) respondem por 7% do PIB do país.

Com a prática, postos das BRs, Rodovia do Café, estradas do Oeste, Sudoeste foram lotando. Em 1981, o religioso adotou o caminhão-capela. Tempos depois, Marian reuniu dois mil fiéis no Posto Branco, em Dois Vizinhos, Sudeste do Paraná. O coroinha de João Paulo II tinha virado celebridade de um Brasil que poucos conhecem.

Diálogos no posto de combustíveis

“Não choro pelo que perdi, agradeço a Deus pelo que sobrou.” A frase – estampada no pára-choque de uma velha Mercedes Benz 1.113 – traduz a vida de seu condutor, o catarinense de Urubici, Assis Francisco de Lima, 51 anos, 30 de boléia. Assis se casou cinco vezes e tem 11 filhos – espalhados pelos três estados do Sul. Um deles, Indianara, morreu há mais de uma década, ainda bebê, num acidente de estrada. A mais nova – Eloísa, 2 anos – tem o nome estampado em letras graúdas no pára-brisa dianteiro.

A garota divide as honras com adesivos de São Cristóvão e medalhas de Nossa Senhora Aparecida. Afinal, Assis – um dos 1,2 milhão de motoristas de caminhão em atividade no Brasil – é um estradeiro legítimo. “Eu rezo o tempo todo. A gente parte e não sabe se volta”, diz, repetindo o mantra de nove entre cada dez caminhoneiros. Se encontrar um padre pelo meio do caminho – garante o homem – pára a viagem e participa da missa.

Os meses longe de casa, a liberdade e as muitas mulheres – imagem mais associada à figura dos caminhoneiros – parece não combinar muito com os rigores da religião. Mas não é o que mostra “a vida como ela é”. Basta circular por um posto de beira de estrada e tentar encontrar um caminhão que não tenha pelo menos uma figura sacra no painel ou nos vidros. Inútil. Não à toa, as missas em posto de gasolina são tão ou mais concorridas que show sertanejo: muitas chegam a ter 6 mil fiéis, como a celebrada nos anos 90 por José Carlos Chacorowski em Santo Antônio da Bahia, no Recôncavo. “Foi emocionante”, relembra.

O gaúcho Eusébio Turcatel, 53 anos, 28 de estrada e aproximados um milhão de quilômetros rodados se diz “católico toda vida”. A estampa gigante do Sagrado Coração de Jesus no pára-brisa não engana. Mas as preces vão direto para a Virgem de Aparecida. Além da proteção, Turcatel tem um propósito: agüentar mais dez anos de vida estradeira. Raro encontrar quem não reclame da solidão, dos assaltos, das estradas esburacadas, da demora com as cargas. Mais raro ainda encontrar um que queira desistir do ofício.

O paranaense José Geraldo, 40 anos, contador e há quatro meses na estrada, já teve uma amostra do que a vida estradeira lhe reserva. Em pouco tempo, alcançou o Ceará, conheceu os perigos e a solidão. O adesivo em que está escrito “abençoado” lhe serve de consolo. A saudade do filho de 8 anos apertou em cada um dos 15 mil quilômetros que já rodou, mas nada que o faça sonhar com a monotonia do escritório de contabilidade. “Quero ficar nessa vida cinco anos. Eu agüento”, calcula.

O são-joseense Celso de Almeida Campos, 56 anos, 30 de motorista, não se espanta com a paixão do conterrâneo recém-chegado. “Minha mulher já pediu 559 vezes para eu parar. Não tenho coragem. O que vou fazer? Trabalhar na construção civil?” Qualquer mestre-de-obras agradeceria a vitalidade de Celso, um homem pequeno e falante que cumpre a cada oito dias uma rota de 3,2 mil quilômetros de ida e volta de Curitiba até Porto Velho numa gigantesta Mercedes 38. “O povo fala de caminhoneiro. Mas, não é nada do que dizem. A gente come mal, dorme pior ainda. Não tem nada a ver com o seriado Carga Pesada. Cada vez que eu chego em casa é uma vitória. Já vi companheiro sair de acidente com uma barra atravessada no peito e com as pernas esfoladas. Por isso, eu rezo”, diz Celso. (JCF)

Ser caminhoneiro é...

Levantamentos mostram que motorista de caminhão é profissinal mal-remunerado sob perigo.

Trabalhar em excesso
Pesquisa da Polícia Rodoviária Federal (PRF), de 2002 a 2006, com 25 mil caminhoneiros, mostra que 66% dos motoristas têm excesso de atividade e 30,5% ficam entre 12 e 14 horas seguidas no volante.

Estar acima do peso
Segundo a mesma pesquisa da PRF, 75% dos caminhoneiros são obesos.

Viajar muito
Cada caminhoneiro viaja em média 122 mil quilômetros por ano.

Enfrentar acidentes
CNT levantou a ocorrência de 90 mil acidentes anuais com carga e 12 mil mortes – um terço desse total são caminhoneiros.

Estudar pouco
Em mil entrevistas, CNT mostra que a média dificilmente ultrapassa oito anos de escolaridade. Apenas 27% dos motoristas concluíram o ensino médio.

Ganhar pouco
Renda média bruta, segundo a mesma pesquisa, não ultrapassa R$ 2,5 mil. Pedágios e manutenção diminuem a renda para R$ 1,2 mil.
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"Mesmo em condições regulares, tudo pode acontecer na estrada. É perigoso"
Padre José Carlos Chakorowski

"A estrada tem uma linguagem própria. Os motoristas estão abertos para a ação pastoral"
Padre Germano Nalepa